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11/11/2005

A Malícia dos Gatos

Uma coisa eu sei: odeio gatos.

Porém, outro dia ao conversar com uma pessoa que, sem saber de tal coisa, disse que os adorava, e ficou chocada com o fato de eu não os admirar, ela me perguntou o por quê. A partir daí eu comecei a pensar sobre isso.

Meus argumentos foram mais ou menos estes: os gatos são sinistros, cínicos, aproveitadores, têm algo de ‘vagabundos’ disfarçados em bolas de pêlos cheirosas e fofas (aquele jeitinho que eles se esfregam nas nossas pernas me dá náuseas) mas que escapam de noite e comem os ratos...

Em suma, eu disse, é a sua malícia. A pessoa então respondeu: ‘Malícia não é maldade, para a sobrevivência é necessária certa sagacidade’. ‘Então talvez seja disso que eu precise!’ respondi.

Não sei se é. Não quero que seja. Ainda tenho nojo dos gatos!!

Eu me lembrei deste poema do Humberto Gessinger:
“Um dia me disseram que os ventos às vezes erram a direção
E tudo ficou tão claro, um intervalo na escuridão
Uma estrela de brilho raro, um disparo pára o coração

Um dia me disseram quem eram os donos da situação
Sem querer eles me deram as chaves que abrem essa prisão
E tudo ficou tão claro
O que era caro ficou comum
Como um dia depois do outro

Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão
Sem querer eles me deram as chaves que abrem essa prisão
Quem ocupa o trono tem culpa
Quem oculta o crime também
Quem duvida da vida tem culpa
Quem evita a dúvida também tem
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter”

PS. São trechos, não está completo

O que me fez fazer a analogia não tem a ver com a perda da inocência (sobre o que eu acho que este poema se trate) mas o tratamento do poeta em relação às nuvens de algodão deixarem de ser relevantes em sua vida, o fato dos ventos às vezes falharem e errarem a direção os descredibilizaram de vez por todas. Ele recebeu as chaves da prisão, e permitiu-se fazer parte dela, permitindo que lhe ditassem o que ser e o que sonhar.

Eu descubro que existem pessoas parecidas com os gatos: muita, muita malícia. Eu não pretendo afirmar que sou a inocência e a pureza em pessoa, que meu mundo é macio e cheirosinho, mas afirmo que O-D-E-I-O este tipo de malícia suja da realidade que aprisiona e transforma a vida em uma fossa de calculismos, cinismos, maldades e desesperanças. “Quem duvida da vida tem culpa”.

Abaixo os gatos!

4 comentários:

Luiz Felipe Asp disse...

Sei lá...

Não foi Jesus que disse que há malicias das quais precisamos, e inocências das quais não podemos abrir mão? O meu problema, e o de muita gente, começa quando abrimos mão da inocência que deveria permanecer, e ficamos com a malícia que nunca devíamos ter.

Eu já achei você mais inocente do que devia, e vejo que, hoje, não é o caso.

Aprender a dar valor ao que tem valor, respeitar o que merece respeito, só brincar de forma pura, ai... Eu pago com a língua.

E nós, os maliciosos, dificilmente conseguimos voltar atrás. Quantas vezes eu não tentei, mas só a minha presença já fazia as pessoas pensarem em duplos sentidos e jogos. E, sendo esses os meus vícios, eu não tardava a cair de novo.

Admiro a sua inocência, que é a inocência santa, e não a inocência tola. Quisera eu ter uma dessas no meu coração.

Jocinei Junior disse...

É isso mesmo! E eles, alem disso tudo, não gostam de banho!

Jackie Götzen disse...

Bionca, gatos não comem ratos! Matam QUANDO conseguem encontrar um; pois geralmente estes fogem ao sentir o cheiro de seus possíveis predadores.
Miau p/vc!
"Nós gatos já nascemos pobres porém, já nascemos livres..."

Bianca disse...

JACKIE, Que saudades!! E que emoção te ver por aqui...

Sinto te dizer, bem... mas gatos comem ratos sim!

É só filosofia! Consigo conviver num mundo com João Kléberes, políticos, e crentes esquisitos (talvez como eu... depende do ponto de vista, rs) Acho que consigo sobreviver num mundo com gatos, não liga não.

Beijinhos