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27/06/2009

Para que se lembrem dele...

Naquela manhã de quinta-feira eu cheguei atrasada para a aula de Desenho Anatômico. No Pamplonão, nosso grande ateliê, não havia ninguém, apenas um bilhete indicando uma outra sala no Centro de Ciências da Saúde. Com certo frio na barriga e orientações anotadas na mão, para lá eu fui.

No subsolo do CCS encontrei o que eu temia: pessoas, pedaços, músculos, ossos. Há que se ter alguma vocação muito especial para manipular gente morta com aquele sangue frio. Olhos atentos aos passos e explicações dos cientistas. Nós, ‘cientistas’ dos sentidos, com espanto, fruíamos. Para os mais melancólicos como eu, a visita, as palavras e as imagens pareciam penetrar os sentidos em câmera-lenta. E abriam espaço no peito, rasgando, dilatando os pensamentos e as idéias que buscavam se organizar.

As palavras da monitora de jaleco branco prosseguiam serenas quando eu esbarrei com alguns ossinhos miúdos e delicados do ouvido numa prateleira de vidro. Bigorna, martelo, um outrozinho que envolve o tímpano, cujo nome não me recordo. Ossos extremamente frágeis. Delicadamente se encaixavam. A turma havia entrado numa sala mais à frente onde inúmeros ossos eram separados em bacias adesivadas com seus respectivos nomes. Parecia uma grande loja de ‘lego’. Todos se encaixavam. Impressionantemente se encaixavam.

Da densa visita que precisaria em silêncio digerir com o tempo, ficou nítido o pensamento: É muita ousadia [ou muita fé] ser ateu trabalhando nesta área. E pensei isto não como afronta à opinião ou escolha de ninguém, mas realmente estava impressionada com a complexidade e imensidão dos detalhes do Deus Criador!

O pastor Carlos Queiroz , ano passado, no congresso “Cadê Você, Adorador?” realizado anualmente na minha igreja [PIBN] trouxe uma idéia interessante sobre adoração. Segundo ele esta se dava ao longo da vida sempre que algo nos remetia a Deus, fosse com gratidão, alegria, temor... Servir um familiar em casa, ou contemplar um céu rosado de pôr-do-sol, se me remetesse a Deus, eis aí a adoração.

Me ocorreu alguns dias depois da tal visita à sala de Anatomia, e após digerir muitas idéias, que Jesus já havia feito uma oração assim. Certa vez ele associou sua Igreja à metáfora do corpo humano. Pediu a Deus que assim como Eles eram um, que nós também, encaixados em unidade, o fôssemos. E para que? Segundo ele, para que quando o mundo olhasse para nós, se lembrasse dEle.

Tá. Mas e daí?

Daí que também me ocorreu que toda a questão é sobre Amor. O mundo se lembraria de Deus se visse Amor em nós. O “problema” é que pode haver amor em muitos lugares, de diversas formas, mas este Amor aí, de letra maiúscula, deve ter algo a mais. Em I Coríntios 13 há o relato do tipo de Amor com que deveríamos amar. Esta passagem também me parece uma descrição do próprio Deus, visto que Ele é Amor. Faz sentido?

Pus-me a refletir sobre o amor imageticamente: Uma linha. Em uma ponta, o inferno: ausência total de amor. Na outra, o céu: amor em plenitude. No meio: a vida.

Nas duas pontas desta linha [céu ou inferno] são os únicos lugares em que se estará livre dos perigos e “males” do amor.

As pessoas no mundo muitas vezes desconfiam de nossas palavras, enquanto igreja, por não enxergarem na prática um diferencial. Assim como a criança pode crescer ouvindo instruções de seus pais e nunca apreendê-las, pois as crianças entendem e aplicam os exemplos que seus olhos vêem. E nós, igreja, muitas vezes estamos tão preocupados em dizer alguma coisa ao mundo, que esquecemos de olhar para nós, e de ouvir serenamente a instrução do nosso Guia. Nos perdemos em teologias e discussões irrelevantes. Nos perdemos em eventos, congressos e mobilizações. Esquecemos que é tudo sobre o Amor... Sem ele, tudo é desperdício e inutilidade.

Paulo, o apóstolo, naquela carta disse que se podem fazer muitas coisas nas quais dificilmente negaríamos a presença de amor, ou pelo menos, questionaríamos a genuinidade, como profetizar, ser um intelectual conhecedor da ciência e dos mistérios do mundo, doar tudo o que se tem aos pobres, ser uma grande religioso, entregar a vida a alguma bela causa, ser um mártir, ou ser um homem ou mulher de imensa fé...

Aquele Amor que é o próprio Deus exige muito mais que palavras e gestos. Exige um coração transformado... exige talvez todo o tempo de nossas vidas. O Reino de Deus haveria chegado, segundo Jesus. O ano do Senhor. O ano do Favor do Senhor! E pensando nesta linha, o processo de conhecer e crescer em Deus poderia ser o processo de se aproximar à extremidade da linha da vida, onde o Amor pleno está. É assim que a unidade se faria. É assim que Deus se revelaria em nós.

“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.
Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha...”
[ICo 13: 4 - 8]


A aplicação de algumas verdades é tão difícil. Rubem Alves me ajudou a entender um pouco melhor isso tudo quando refletindo e poetizando disse sobre a parábola do Filho Pródigo:

“... Imaginou que seu pai bem que podia contratá-lo como um de seus empregados, já que não merecia voltar como filho. O pai o viu de longe. Saiu correndo ao seu encontro e o abraçou. Antes que o pai falasse qualquer coisa ele disse: ‘Pai, peguei dinheiro adiantado e gastei tudo. Eu sou devedor. Tu és credor.’ Mas o pai lhe respondeu:
Meu filho, eu não somo débitos...
...O irmão mais velho ao saber da festa ficou muito bravo e se recusou a entrar. O pai foi ao seu encontro e foi isso que seu filho lhe disse: ‘Pai, trabalhei duro, nunca recebi meus salários, não recebi minha férias e jamais me destes um cabrito para alegrar-me com meus amigos’. O pai sorriu e lhe disse:
Meu filho, eu não somo créditos’...

Amar talvez seja aprender a dar e aceitar a Graça. Sem débitos. Sem créditos. Uma Graça livre que não impede escolhas, mas que oferece a outra face, ambas as mãos, e todo o resto!

Meu sonho? É que assim como eu me lembrei de Deus ao ver corpos humanos em sua complexidade interior, que Deus seja lembrado, percebido, e docemente recebido, quando o Amor que espalharmos estiver acima de méritos, explicações ou compreensão. Um.
Como unidade.
Comunidade.

6 comentários:

Fernanda. disse...

"...e docemente recebido...", é bom receber doçura assim, bionca! Eu tenho sonhos parecidos assim com esses!

O Reina disse...

"... exige talvez todo o tempo de nossas vidas".
Acredito muito nisso.
Psiu! Fale baixinho! Vamos amar!

Bianca disse...

Hahahaha
Ai, ai...

Reina, seu comentário é "incomentável"!

Ághape neles!

Liege Lopes disse...

(Agora não sei mais se comento o texto ou o comentário do Reina. Mas como eu o amo, o deixarei em paz. rsrsrsrs)

Ah! Bianca, obrigada por me lembrar da Graça.

Também amo você!

Nathália Del Rey disse...

Parabéns pelo texto, Bia!
você escreve muito bem, além das ótimas reflexões..

Bianca disse...

Linda, amei a visita!