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08/12/2009

Babi espera...

15 são os meses que separam o início de nossa existência.
15 os meses que lhe deram vantagem no calendário e a missão de primogênita, desbravadora fraterna, também conhecida como a irmã mais-velha.

Sei que no início a diferença era muitíssima: aquele bebê anda e balbucia, já este, frágil, deita, e só. Chora um pouco, mas o bebê-que-já-anda resolve com um dedinho de chupeta. E sabe dizer o nome dela “Biazinha”, mesmo que devesse esperar para ouvir resposta, mesmo que devesse esperar para que as perninhas a seguissem, mesmo que devesse esperar para que ela corresse pelo quintal atrás dela, e empurrasse o balanço, e colhesse caju e goiaba no pé, e a visse bater palmas quando a bicicleta azul descesse a rampa equilibrada. E lá no final, um freio, a olhada pra trás, porque o velotrol mesmo com três rodas, tem desvantagem, mas ela espera.
Babi espera.

Babi espera a Biazinha tirar as rodas da bicicleta uma por uma, e a recuperar o tombo dos patins. Babi lê pra ela, e espera, um dia ela acompanha este caminho. Babi espera.

Babi espera, mas anda. E vai na frente com seus 15 meses de vantagem, que na escola viraram 24, porque ela já sabe ler? Então adianta, porque ela encara.

O tamanho foi deixando de ser diferença... as conversas também.
“Que gracinha, são gêmeas?”
“São sim” – respondia papai, cansado de negar a pergunta freqüente.

Os caminhos que a irmã mais-velha abria eram o impulso pra caçula, que perdia o medo, que pisava o incerto ao acompanhar os passos bravos e dedicados da irmã. Qual seria a sensação de ir na frente?
Babi ia.
Babi sempre ia.

O curso de inglês e as músicas que aprendia a cantar me davam sede de saber também. O vestibular e a menina muito nova pra esta etapa [16] me encorajavam a chegar lá também. Os livros e as conquistas me faziam saber que eu também podia. Mas eu podia por causa dela, a minha irmã que conseguiu. Ambas já moramos fora com amigas por um tempo, mas encontra-la na rua em qualquer lugar me dava a sensação de que ela trazia no bolso minha casa. Minha casa com pernas.

Enquanto ser pai/mãe é algo divino, pois é a hora que se sente como Deus ensina a Graça: dando sem esperar em troca. É quando se investe em algo que não se possui... Eu diria que ser irmão é compartilhar a existência, ter irmão é entender o mundo. É descobrir junto, é ser semelhante. Babi é extensão da Bia, e Bia dela. E elas são uma, e sua unidade aponta para o Pai.

Diferença, complemento, cuidado daqui pra lá e de lá pra cá, opa!, sem bancar a mãe, e o mesmo vale pra você, implicância, quem usou meu perfume?, quer um pedaço?, fica pra você, vamos ali?, vem comigo?, tô afim, não tô afim, chega pra lá, vem me dar um abraço, eu te amo, ai, sua chata, sai daqui, volta aqui, me dá um abraço, experimenta isso!, toma, comprei um agradinho pra você! Lê isso! Você precisa ler isso! Já leu? Você bem que podia me emprestar, sai! Volta aqui!

Hoje eu faço minha declaração de amor à minha irmã Bárbara. [O blog já suportou muitas coisas íntimas, e eis mais uma] Por ser tão diferente de mim, por reagir de forma diferente, por funcionar de forma diferente, por falar e se interessar por coisas diferentes, por ser ela, e por eu ser tão “eu” por causa dela. Por sermos independentemente amigas. Pelo nosso amor tão livre e junto. Á ela dedico grande parte do diploma que conquistei neste ano, a ela dedico minhas memórias do cheiro da chuva no chão ainda quente, a ela dedico minhas brincadeiras infantis e corridas em busca de vitória nos piques, nossas danças, as corridas de cumplicidade pra fugir de broncas, as lagartas, borboletas e vaga-lumes, os desenhos a giz na parede da sala, as castanhas de caju sendo torradas na lata e quebradinhas com o martelo, dedico minhas memórias dos natais, minha admiração pela sua sempre presente coragem de irmã desbravadora do mundo. Dedico a ela porque, enquanto ela lia pra mim, ou me esperava até que pudesse ter pernas para alcançar suas brincadeiras, eu sempre pude chegar. Das palavras que bebi da sua cartilha, as palavras que hoje sei combinar pra revelar meu mais profundo coração. Dedico a Babi porque ela sempre soube seguir em frente, mas sempre soube me esperar.

Babi, eu cheguei.
E quero sempre ter você para me apontar a minha casa no seu sorriso e nos seus cachinhos. Na distância ou na proximidade, você sempre será minha casa.
Te amo!

3 comentários:

Luaninha disse...

Bia, essa foi a declaração de amor mais linda que eu já vi entre duas irmãs!!!!! AMO vocês!!!!!!

Liege Lopes disse...

Ah...
tão lindo! Escorreu uma lágrima...

Aline Santiago disse...

Amiga,eu sou pé no chão sim,razão, mas como conviver com alguém como você e não ser "pura" emoção? Então, sem querer abusar da ousadia, fica aqui o meu pedido: sempre que for postar algo que me leve a derramar lágrimas (e tantas),faça a gentileza de me comunicar no início do texto, para eu ter tempo de avisar ao meu nariz que não se aborreça, quando se perceber do mesmo tamanho da minha boca, no momento em que as lágrimas percorrerem os caminhos do rosto durante a leitura (que passa a se chamar vida sempre começo a ler, já que consigo ver, sentir e tocar todas as suas palavras). Tenho muito orgulho de me dizer e SER AMIGA SUA!