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20/12/2005

Apenas Pensando...

Refletindo sobre relacionamentos (juntamente com todos os amigos blogados), igreja, corpo, viúvas, órfãos, prostitutas, cobradores de impostos, crentes superficiais, porcos-espinho, rosas...

O que é tão difícil? Por quê é tão difícil? Onde está o erro?

Falta de graça. (É a primeira resposta que me vem à mente)

- Abrir mão de mim? pelo outro?
- Abrir mão do conforto e da segurança?
- Vá com calma, menina...

Existe uma música, que conheci num congresso muito especial sobre evangelismo e missões em Julho deste ano, que tem feito muita diferença para mim. Só pelo título já me chamou a atenção: 'Eu Quero me Esvaziar de Mim'.

"Eu quero me esvaziar de mim
Eu quero me esvaziar da religiosidade
Eu quero me esvaziar de todos os meus títulos
e de tudo que me afasta de Ti
Eu quero me esvaziar das dores e desilusões
Eu quero me esvaziar da prisão do passado
E de tudo o que me afasta de ti
Pois aonde eu irei, Senhor, se só Tu tens as palavras de vida eterna?
Onde me esconderei? Tu és o ar que eu respiro
Tua presença me atrai
Então inunda-me com teu amor
Transforma-me com teu amor
Atrai meu coração a Ti, Senhor
Move-me com teu amor, e usa-me pra Teu louvor
Ensina-me a ouvir o Teu coração
Eu me esvazio, Senhor"

Da mesma forma que, para com Deus, o esvaziar-se implica em adoração sincera e consciente, a partir do momento em que não há um turbilhão de preocupações, máscaras, problemas, família, trabalho, estudo, penteado, umbigo... entre minha cabeça e minha palavra, e a partir do momento que me enxergo nú diante de tão grande figura... eu sei se meu coração quer ou não adorá-lo sinceramente, e posso fazê-lo com grande pureza e alegria.

Penso que esvaziamento é uma turbina hiper-potente nos relacionamentos humanos. Assim como Paulo orienta aos Filipenses que se eles, de alguma forma, se agradavam de Cristo, se nele encontravam algum consolo, ou alguma graça,que isto fosse refletido neles para que formassem uma unidade, pela humildade e não para vanglória. De forma que houvesse o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, que "sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus", depois diz que ESVAZIOU-SE a si mesmo fazendo-se servo e tornado-se semelhante aos homens, e então humilhou-se até a morte de cruz.

Já estaria bom se fosse homem, mas foi servo. Seria necessária sua morte, mas, antes, humilhou-se lavando pés, e permanecendo mudo diante de insultos.

Lavar os pés, esta atitude para mim, demonstra uma grandeza pura, e emudecedora, grandeza do homem que sabia quem era, e por saber, não precisava provar nada pra ninguém. Abaixar-se aos pés dos discípulos não diminuira sua convicção. Antes demonstrava sua graça. Graça é dom imerecido. Escolheu se esvaziar, por amor, por graça.

Sinceramente, altruísmo é algo que nos machuca muito, se as pessoas ao redor não conseguem enxergá-lo e se aproveitam disso, mas aí é que entra a humildade, o amor, a graça. Abraçar alguém após um insulto por reconhecer sua dificuldade pessoal não parece ser habitual. Na verdade, não se pensa nas dificuldades alheias, somos todos muito fortes e seguros, obrigada.

Esvaziar.

Se nosso copo está sempre cheio, onde caberá da água?
da água da vida, limpa, curadora, fresca, amável?

Exatamente quando estamos vazios é que nos percebemos frágeis demais. Talvez por isso não há esvaziamento frente a pessoas de quem não se espera graça, pela auto-proteção. Reparem que após o esvaziamento, o poeta pede, quase se pode ouvi-lo choramingar, que o Senhor o inunde, transforme, atraia, mova, use, e ensine, sempre pedindo que seja com amor, com teu amor, com teu amor, com teu amor... Pode-se confiar neste amor tão altruísta, este Deus pode nos enchergar exatamente como somos, não como nos imaginamos, ou como nos impomos, e mesmo assim, não nos machucar...

A diferença é a graça...

9 comentários:

Ale disse...

... a graça ainda é um conceito muito abstrato ...

No "esvaziar" do poeta, ele considera apenas sua relação com Deus. Em momento nenhum, ele cita o outro. Tenho receio da confusão entre ‘adoração sincera’ e ‘fuga da dificuldade em lidar com suas emoções’. As coisas se infelizmente se tangenciam...

Quando Deus nos dá o mandamento-chave para todo o Evangelho: “amai a Deus sobre todas as coisas, amai ao próximo como a ti mesmo”. Não creio, hoje, numa comunhão com Deus que não passe pelo relacionamento com as pessoas. Exercícios de perdão e aceitação não podem ser feitos entre nós e Deus.. é covardia, porque ele sempre aceita e perdoa.

Por trás do amor que “tudo crê, tudo espera, tudo suporta”, pode haver armadilhas.
Onde é o limite do amor incondicional, que aceita, que perdoa, que não se zanga, que não deseja o mal e o ‘amor doentio’ (ou a falta do amor-próprio) que aceita humilhações, injustiças e agressões?

Deus nos chamou para sermos livres e cheios.
Cheios do seu espírito e de seus frutos – que na grande maioria, são atributos para utilizarmos com os outros....

Beijinho! :)

Bianca disse...

É exatamente isto, cheios Dele.
Talvez não tenha ficado claro o que eu quis dizer com o esvaziar, não me refiria à personalidade e características pessoais, mas coisas do tipo as que podem ser deixadas de lado na hora em que eu vou adorá-lo, como pedidos de cura, de emprego...
Você tem razão, o poeta não cita o relacionamento com o outro, esta abstração foi minha mesmo! Foi um paralelo. Quando se trata do próximo, o esvaziar é de ego mesmo! Mas não quis dizer que eu consiga fazer isso, é apenas o que eu acho que seria um bom caminho... "Considerar os outros superiores a nós mesmos", talvez seja o pensamento para se achar o equilíbrio, já que provavelmente neste ítem todos falharemos um dia!

'Onde é o limite do amor incondicional, que aceita, que perdoa, que não se zanga, que não deseja o mal e o ‘amor doentio’ (ou a falta do amor-próprio) que aceita humilhações, injustiças e agressões?'

Aceitar humilhações, injustiças e agressões... isto me lembra Jesus, e não me parece doentio ou falta de amor-próprio, antes se enquadra no incondicional! Nunca (aqui na terra) conseguiremos ser perfeitos neste amor, mas temos um exemplo a seguir...

Talvez os amigos que não são emocionais possam argumentar...

Beijinhos

Bianca disse...

Também não quis sugerir que sejamos todos bocós que ficam parados dizendo: “Oh, coitadinho dele”, “Ah, tadinha dela”, ‘Puxa, pobrezinho’, ‘Ai, meu coraçãozinho’, “Ai, vou chorar com eles”...

Existe muita sabedoria para reconhecimento de malícias e de falta de vergonha na cara. Neste caso, amar seria não desistir e oferecer o imerecido dom da graça. Amar também é corrigir, admoestar, mostrar caminhos, e deixar que a pessoa passe por conseqüências ruins para seu próprio crescimento...

Ora, pois...

Luiz Felipe Asp disse...

Bom texto. Se eu não estivesse acordado há 18 horas, escreveria algo inteligente a respeito dele. Posso comentar fiado?

beijos, e obrigado pela conversa de hoje.

Anônimo disse...

Muito, muito bom Bianca. Quando me esvazio de mim mesma torno melhor o meu relacionamento com Deus e com o outro pq o aceito como é, com o que tem pra me oferecer (de bom ou ruim), ao invés de exigir dele(s) determinado comportamento (o que eu quero, o que eu esperava, imaginava que deveria ser...).
Ontem eu ouvi que quando alguém te dá um soco e você perdoa, você fica com o soco e ele com nada...não respondi à pessoa, fiquei pensativa...mas creio que o outro fica com a "graça", com o amor.
Beijo pra ti Bianca linda...continue assim!
e lembre -se: ...tú te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas..."
Raquel

Luiz Felipe Asp disse...

"Ontem eu ouvi que quando alguém te dá um soco e você perdoa, você fica com o soco e ele com nada...não respondi à pessoa, fiquei pensativa... mas creio que o outro fica com a "graça", com o amor."
- Raquel

Uma vez que a frase foi minha, faço questão de explicá-la. Eu queria dizer que, ao perdoarmos o soco, não o vingamos, não iniciamos uma busca por retratação, nem exigimos uma punição justa.

Claro podemos complementar e dizer: com o perdão, aceitamos o soco e restauramos a pessoa na nossa vida, voltando a pessoa a ser amada e ficando o soco para trás.

beijos

andrevonheldsoares disse...

Muito bom o texto, Bianca.
Um pouco de se esvaziar para se encher.
Creio que isso é uma necessidade genuinamente cristã: "desentulhar" o coração de orgulhos, etc. para que ele acabe ficando repleto de Deus.

Luiz Felipe Asp disse...

Acho que se esvaziar tem a ver com baixar a guarda... ninguém ama enquanto se defende, ou foge, ou evita, ou cria barreiras. Sei que me defendo, às vezes, e não amo e nem permito que me amem. Isso é o normal, é o instinto de auto-preservação.

Para amar, eu aprendi que eu preciso me esvaziar de minhas defesas, dos meus medos, e das minhas mágoas. Me esvaziar também dos meus interesses e desejos, nem que por um momento. Não posso construir meus relacionamentos em função disso.

Não é fácil, e minhas tentativas são banhadas em imperfeição. Mas faço o que dá, sigo em frente, e entrego tudo isso a Deus.

...

"Talvez os amigos que não são emocionais possam argumentar..."
- Bianca

Todos os amigos tem emoções, rs, mesmo nós, os teóricos. Acho que a difreença entre o amor incondicional que aceita sofrer, e o amor doentio, é que o doentio não é amor. É uma compulsão, fruto da carência e da auto-estima baixa.

Jesus aceitou, por amor, ser humilhado, espancado, e morto. Sim, os relacionamentos que Ele pode levar para frente foram com seres imperfeitos, mas que queriam tentar algo com Ele. Jesus sofreu o necessário para estar conosco, para que pudéssemos esstar com Ele.

Deus, por amor, vive um eterno "tente outra vez" conosco, pois ainda pecamos e ainda o magoamos. Isso quer dizer que seu amor é doente? Não.

O amor de Deus TUDO sofre, e de braços abertos. É verdade que os relacionamentos que Deus constrói são com aqueles que o machucam, e muito, mas que QUEREM. Mas Ele está de braços abertos até para aqueles que não querem.

Sua motivação é amar, não fugir de um vazio interior, de dores emocionais, ou de uma falta de amor próprio.

Espero ter dito coisa-com-coisa por aqui.

abraços!

ticiano diógenes disse...

concordo com o luiz a respeito do comentário da alê:


"Por trás do amor que “tudo crê, tudo espera, tudo suporta”, pode haver armadilhas.
Onde é o limite do amor incondicional, que aceita, que perdoa, que não se zanga, que não deseja o mal e o ‘amor doentio’ (ou a falta do amor-próprio) que aceita humilhações, injustiças e agressões?"


o amor se torna doentio quando o outro só existe para te rebaixar e vc continua na relação, pq amar é suficiente. será q apenas amar é suficiente?
no "amor saudável" - vamos por assim - as brigas acontecem e há o perdão, pq houve entendimento. perdoar não é esquecer, é entender o outro e deixar MESMO o que houve pra trás.
Jesus amou até os fariseus, e os vendilhões do templo, mas nem por isso deixou de dar um sacode básico qd houve nescessidade. e os perdoou, porque não sabiam o que faziam. e para que o amor dEle não se tornasse doentio, Ele prosseguiu em seu caminho e não ficou pedindo "por favor me aceitem" aos que O rejeitaram. antes, deixou Sua mensagem e seu perdão à disposição, para que no momento em que eles estivessem prontos, o aceitassem e vivessem nEle.

bjo