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17/04/2007

Favela

São 200, são 300
as favelas cariocas?
O tempo gasto em contá-las
é o tempo de outras surgirem.
800 mil favelados
ou já passa de um milhão?
Enquanto se contam, ama-se
em barraco e a céu aberto
novos seres se encomendam
ou nascem à revelia.
Os que mudam, os que somem
os que são mortos a tiro
são logo substituídos.
onde haja terreno vago,
onde ainda não se ergueu
um caixotão de cimento
esguio (mas se vai erguer)
surgem trapos e panelas
surge fumaça de lenha
em jantar improvisado.

Urbaniza-se? Remove-se?
Extingue-se a pau e fogo?
Que fazer com tanta gente
brotando do chão, formigas
de um formigueiro infinito?
Ensinar-lhes paciência,
conformidade, renúncia?
Cadastrá-los e fichá-los
para fins eleitorais?
Prometer-lhes a sonhada,
mirífica, rósea-futura
distribuição (oh!) de renda?
Deixar tudo como está
para ver como é que fica?
Em seminários, simpósios,
comissões, congressos, cúpulas
de alta prosopopéia
elaborar a perfeita
e divina decisão?

Um som de samba interrompe
tão sérias indagações
e a cada favela extinta
ou em bairro transformada
com dinheiro a pagamento
de Comlurb, ISS, Renda,
outra aparece, larvar,
rastejante, insinuante,
grimpante, desafiante,
de gente qual gente: amante,
esperante, lancinante ...
O mandamento da vida
explode em riso e ferida.

poema escrito por Carlos Drummond de Andrade para o 1º Encontro Estadual de Favelas, realizado em 29 de março de 1981, organizado pela Federação das Associações de Favelas do Rio de Janeiro (Faferj)

2 comentários:

Gustavo Pereira disse...

muuito bom!

andré vhs disse...

excelente!!!