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19/12/2008

Escolhas - Parte I

“E deu roupas a Adão e Eva depois que se rebelaram”.

Estranhamente, foi esta a frase que me consolou por estes dias...
Tenho estado ansiosa e ao mesmo tempo muito empolgada com algumas questões e possibilidades... Entretanto, quando há escolhas diante de nós, é muito difícil, simplesmente, descansar...
Recorri à bíblia, e o que encontrei não foram pardais encontrando casa, ou lírios, belas roupas... [mais belas que as de Salomão, aliás].

Encontrei um homem, uma mulher, e uma escolha.
Encontrei uma decisão [e todas as suas conseqüências], a responsabilidade, e um incansável Amor.

Ainda não sou mãe, mas acho que muito do “à nossa imagem e semelhança” se reflete neste ato. O divino se revela em nós quando vemos alguém saindo de nós mesmos, porém não sendo “nosso”. Coloco entre aspas, pois o pertencer em ambos os casos (tanto referentes à criação divina, quanto à maternidade-paternidade humanas) me parecem inquestionáveis. No entanto, há algo no amor que é revelado como escolha.

Naquele Jardim perfeito por onde tantas tardes passeavam e sorriam, estava uma árvore. A árvore que garantiria uma reciprocidade genuína, a meu ver. Adão e Eva fizeram sua escolha.

E com muita dor, imagino, Deus viu sua criação escolher um caminho para longe dEle... E Deus, o que fez? Preparou-lhes roupas e os *vestiu, antes de vê-los partir... [* Gn 3: 21]

Estas imagens me lembram uma estória infantil que o *Rubem Alves escreveu sobre a saudade e a despedida, pois a mágica do Amor está na escolha que a liberdade de cada um de nós possibilita.

Ainda bem que o perfume de Deus ronda pelo mundo trazendo apaixonados, de volta pra si, aqueles que se haviam perdido. E o seu cuidado veste toda a humanidade, a despeito de suas escolhas...

Meu consolo está na escolha que eu fiz de pertencer à Deus, por causa dEle mesmo. E minha oração, a partir disso, é que qualquer que sejam os caminhos por onde Ele me levar, que minha Vontade esteja sempre em sintonia com a Sua música. [escrevo Vontade com letra maiúscula, pois na realidade, é a única coisa que o homem, de fato, possui].

* Estou postanto este texto como introdução à estorinha do Rubem Alves, pois senão esta postagem ficaria gigante. E pra quem não conhecia esta faceta do Rubem das estórias infantis, deliciem-se à vontade! ;]

3 comentários:

Miguel Del Castillo disse...

"Ainda bem que o perfume de Deus ronda pelo mundo trazendo apaixonados, de volta pra si, aqueles que se haviam perdido. E o seu cuidado veste toda a humanidade, a despeito de suas escolhas..."

e vamos girando pelo mundo, no sentido d'Ele e vestindo azul ("a terra é azul"), olhando pro céu também azul e "poetando" a saudade que existe dentro de cada um de nós.

quem ficou curioso pra ler a estorinha do rubem alvez? o/

Deus vestindo a vergonha de quem tinha traído Ele próprio... acho esse versículo, junto com a passagem que mostra Davi com Mefibosete, dos mais significantes de todo A.T.

beijo e brigado por me lembrar!

O Reina disse...

Sobre a fatalidade da vontade e o vão elogio a ela, um pouco de Chesterton:
" A real diferença entre o teste da vontade e o da felicidade é esta: o teste da felicidade é um teste e outro não é. Pode-se discutir se o ato de um homem que se precipitou de um rochedo visava à busca da felicidade; não se pode discutir se ele derivou da vontade. É claro que derivou. Você só pode elogiar uma ação dizendo que ela foi concebida para causar prazer ou dor, para descobrir a verdade ou para a salvação da alma. Mas você não pode elogiar uma ação porque ela mostra vontade; pois dizer isso é simplesmente dizer que é uma ação.
Com esse elogio da vontade não se pode realmente escolher um determinado caminho como sendo melhor que outro. No entanto, escolher um caminho como sendo melhor que outro é a própria definição da vontade que você está elogiando.
A adoração da vontade é a negação dessa mesma vontade. Admirar a simples escolha é recusar-se a escolher. Se o sr. Bernard Shaw aparecer e me disser: "Queira alguma coisa", isso equivale a dizer: "Não me importa o que você quer", o que equivale a dizer: "Nessa questão a minha vontade não entra". Não se pode admirar a vontade em geral, porque a essência da vontade é que ela é particular."

e beijos, porque eu quero!

patrícia disse...

huuu, gostei. tanto gostei que me sinto até consolada pelo "parte I" que quase ignorei no começo.

O divino se revela em nós quando vemos alguém saindo de nós mesmos, porém não sendo “nosso”.

só queria dizer que, se isso estivesse num livro, com certeza eu agora estaria sublinhando esse techo com um sorriso de canto-a-canto. é como se você tivesse posto em palavras uma coisa muito turva pra mim e clareado meu pensamento.

engraçado perceber como, lendo isso, as imagens que surgem na minha mente são orgâncias, mornas, as vezes até gelatinosas, tenras... e, claro, impossíveis. Deus gerando em nós e trazendo à luz aquilo que não somos naturalmente. Parece impossível, mas é aí que cai a ficha do quando o amor de Deus é criativo, surprendente, inesperado... e dá até vontade de descansar.

vc está me saindo uma bela de uma cigana elucidativa, hem? haha agora, por obséquio, escreva mais. e me avise.

hug bear.(: