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01/02/2009

Sobre Abraços...

Que coisa mais estranha é o abraço!

Analisando friamente, o abraço é realmente estranho: duas pessoas se aproximam e com os braços envolvem e trazem para si a outra. Parece uma espécie de ritual mágico digno da análise do olhar do antropólogo.

Às vezes tenho disto: esvazio algumas coisas de um significado óbvio, e apenas observo. Observo como uma criança que ainda tem um mundo inteiro pra significar. É um exercício saudável para a mente. Traz consciência sobre algumas coisas que reproduzimos por hábito. Embora, de fato, ainda tenha um mundo inteiro de "indecifrações" ao meu redor, ou mesmo dentro de mim...

Como uma boa empirista, [limpando a garganta], o que posso colher dos experimentos que trago na mente, são meus testemunhos:

· Quando criança sentia dores de cabeça esporadicamente: podia ser a sinusite, a fotofobia, a falta dos óculos, ou até o rabo-de-cavalo. Visitava vez ou outra a pediatra, mas não era nada demais... Quando as dores vinham, o abraço da minha mãe [até que eu pegasse no sono, às vezes] fazia a dor passar. Era o remédio que eu preferia. Não sabia nem ler direito ainda, a letra na receita não ajudava, mas certamente a médica devia ter prescrito isso lá.

· Meu quintal era grande e cheio de árvores frondosas e firmes. Bem chamativas. Eu abraçava o cajueiro. Posso jurar que já o ouvi sorrir agradecido. Minha irmã também o abraçava, e isso até lhe rendeu uma queimadura de lagarta na barriga certa vez... Mas ela continuou o amando. Chorar tem sua glória... lágrimas regam nossas raízes em convicções mais altas!

· Eu abraçava os patinhos e pintinhos lá de casa. Eram bolinhas branquinhas, amarelas, pretas ou manchadas, redondinhas ainda no formato do ovo de onde saíram há pouco tempo... Abracei meu primeiro cachorro com lágrimas nos olhos: ele era filhote, mas era grande, pelancudo, e tinha manchas como de um tigre... [morreu aos 14 anos, no final do ano passado].

· Já abracei parentes distantes, desconhecidos, bebês, diários onde se escondiam versinhos para paixões secretas, brinquedos novos, bonecas velhas, e até hoje abraço livros, cd's ou discos de vinil que ganho quando muito os desejava!

· Abracei amigos.


Existem coisas que de tão preciosas para os olhos, precisam ser tocadas. É como se houvesse uma crescente necessidade de trazer o mundo para dentro de nós através dos sentidos.

Quanto tempo antes do desespero tem uma mãe ou um pai que não pode tomar no colo seu bebê? Ou uma criança diante do brinquedo? Ou um músico diante do seu instrumento? Ou um apaixonado longe das mãos da amada?

É bonito ver alguém diante do Invisível adorado, levantar as mãos enquanto canta, mesmo consciente das limitações físicas do relacionamento com Quem não se vê, como que pedindo colo.

Tudo que eu abraço entra no meu coração, como se o abraço fosse um portal mágico.

Acho que há um segredo bem aí: quando abraçamos, tiramos os braços do caminho. Se eu pudesse inventar significados como num jogo de Leréia, diria que este “a” em a-braço é uma negação mesmo. A-braço quer dizer literalmente: sem-braço. Sem os braços no caminho, o que sobram são peitos abertos. E nesta profunda troca, nestes segundos enquanto descobrimos os caminhos no coração alheio, os olhos até se fecham. Nada como se aventurar numa trilha misteriosa sendo guiados apenas pelo nosso próprio coração “desprotegido”! Olhos para que?

Se nada do que eu digo é cientificamente confiável [quem chamou a ciência nesta história?], quero que me expliquem de que forma, quando fecho os olhos, vejo dentro do meu peito minha mãe atenta; meu pai construindo brinquedos com madeira ou com os legumes que minha mãe generosamente cedia para virarem bois, porcos ou cobrinhas; minha irmã correndo na sua bicicleta azul; meu pé de caju e minha goiabeira dançando com o ventinho que bate de leve... vejo muitos rostos de amigos, muitos antigos colegas de escola, professores, crianças... ouço música. [Sim, meu coração sempre toca música. Tenho ouvido com mais frequência desde que meu mp3 quebrou]...

20 comentários:

Gil disse...

Caraca, Bianca! [desculpe a espontaneidade] Isso foi demais! Obrigado por tê-lo escrito! [antes que Miguel diga isso].
De verdade, que tal um dia conversar sobre isso, numa rodinha como aquela da última sexta-feira?

"É bonito ver alguém diante do Invisível adorado, levantar as mãos enquanto canta, mesmo consciente das limitações físicas do relacionamento com Quem não se vê, como que pedindo colo."

Pedindo colo... faz todo sentido... Nunca tinha pensado nisso!

Compartilhe mais, menina, vamos lá, compartilhe mais...

Um ABRAÇO!

Gustavo Pereira disse...

biaaaaaanca,
ah, q bonito!
vontade de apertar... hehe...
saudade de dar um bom abraço, menina.
gosto do que você escreve. mesmo.

...
sobre suas dores de cabeça: sem dúvida era o rabo-de-cavalo! hehe... =]

Anônimo disse...

Eu sei de onde estas palavras vieram, vejo quando elas estão vindo e choro depois que as leio. Dá-me um!

Babi

O Reina disse...

U-A-U! clap clap clap! Bis!
Óóóóóóóóóóóóóó...hummmmm...

Smack!

Miguel Del Castillo disse...

Demais.
*_*

Ah... caramba.
"Observo como uma criança que ainda tem um mundo inteiro pra significar."
Continue fazendo isso.

Caraca, esse texto devia ser o manifesto da "free hugs campaign".

Caraca, quero que muitas pessoas leiam isso aqui.

"É como se houvesse uma crescente necessidade de trazer o mundo para dentro de nós através dos sentidos."
Tudo fez muito sentido nesse texto. E o Gil adivinhou o que eu ia dizer, hehe.

Beijos!

blogmoderador disse...

Muito Bom! Bom como um abraço!

Robson Wellington

mamãe disse...

Continue a escrever, filha, isto é muito mais que Arte.

Muito bom relembrar fatos sobre sua infância tão rica.

Quando eu te abraço todos os dias, eu peço ao "Invisível adorado": Cuide da minha menina!

Pedro Grabois disse...

Bianca, de alguma forma, o que vc escreveu me lembrou essa música do Gerson Borges... não sei se já tinha te mostrado essa... mas vou transcrever [de novo(?)] aqui:


Janelas (Gerson Borges)

"Da minha janela contemplo a cidade
Da minha ilusão
Procuro no escuro da noite
Uma pista, uma explicação
Nem mesmo o barulho dos carros
Que passam parece abafar
O cortante ardor do meu coração
Que parece pulsar sem pulsar,
Que parece pulsar sem pulsar

A minha janela é uma espécie de tela,
De televisão
Um rosto querido me olha,
Eu choro, eu perco o chão
Já deve ser mais de onze horas,
Meu Deus, eu preciso deitar
E anestesiar este coração
Que parece pulsar por pulsar
Que parece pulsar por pulsar

Cansado, cansado,
Gemendo, gemendo
Murchando, murchando
Como murcha mesmo a mais linda flor

E agora eu me vejo
Mudado, sofrendo um bocado,
Morrendo de dor

Era uma outra janela e cenário
Uma outra visão:
O sol surgindo dourado
Por cima da plantação
Os bichos, a gente acordando a fazenda
E a noite se vai...
Tudo isto volta ao meu coração
Que parece pulsar por meu pai,
Que parece pulsar por meu pai"

tá aí,
beijos!

Bianca disse...

Gil:
Uma rodinha como a da última sexta é digníssima de um repeteco! Bora marcar mesmo! =]

Guga:
saudade de um abraço tb, vc sabe...

Babi-mamãe:
É um texto repleto de vcs! [e de papai]

Reina:
Deveras onomatopéico! ;]

Miguel:
obrigada... [*.* = criança olhando o mundo...]

Robson:
Upa!

Pedro:
Não só já me enviou, como é uma das que tem tocado no meu repertório cardiovascular! haha
Sério, entre um chorinho e um forró, esta é uma das preferidas das que vc mandou. ;]

Abraço coletivo, queridos!

Liege Lopes disse...

Que lindo Bianca! Continue olhando o mundo assim, tá?

Adorei "Sem os braços no caminho, o que sobram são peitos abertos. E nesta profunda troca, nestes segundos enquanto descobrimos os caminhos no coração alheio..."

E a propósito, eu também abraçava uma árvore quando criança, mas ela morreu... (confira no meu blog).
Um Abração!

Anônimo disse...

passei por acaso no seu blog, não te conheço mas já admiro sua habilidade em escrever, continue sendo usada por Deus pra tocar vidas!!!!
Isabele R.C.

Bianca disse...

Puxa!
Que legal esta visita, Isabele! Obrigada por comentar e apareça sempre que quiser!
Será uma honra!

grande abraço!
=]

Marcos Vichi disse...

Olá Bianca!

O abraço segura, mas não prende. Ele permite que o outro se aproxime e vá embora, para voltar e abraçar de novo.

Mais uma vez o amor, a liberdade e o cuidado caminhando juntos.

Aguardo as próximas publicações deste blog inspirado e inspirador.

Beijos,

Marcos Vichi

patrícia disse...

bianca! eu posso, eternamente, fazer citações com esse seu texto haha. ele é... seu, e é... lindo! parabéns! não me lembro de ter lido sobre abraços coisa mais contemplativa.

"Chorar tem sua glória... lágrimas regam nossas raízes em convicções mais altas!"

e mil e uma outras, leves-leves. haha, não sei muito bem o que escrever, vc me deixou suspirante e distraida.

lindo. parabéns.
escreva um livro! (:

emo. :*

Anônimo disse...

Obrigada por dividir...eu me sinto com muita coisa pra significar haha...Tem muito encanto no que vc escreve...ai ai...agora eu vou por aí de peito aberto ...Obrigada por dizer que esse texto lembra Savana!

Rômulo Boechat disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Polyana disse...

quase um Rubem com peitos... = )

Anônimo disse...

Bianca! Parabéns! Você escreve muito bem, querida. Adorei o conto. :)

Grande abraço de seu amigo,
Leo Trigo.

Renata Sampaio disse...

Oneness total! Hehehe
Parabens pelo texto.

Mariana Moreira disse...

Lindo demais Bianca!!! Já tinha um grande carinho e admiração por vc... depois desse lindo texto tudo ficou ainda maior!!!
Beijos, Mari.